Misandria: um ensaio cru.

Raramente você vai ver uma misândrica dizendo que todas as mulheres precisam detestar homens como ela detesta. Raramente você vai ver uma misândrica hostilizar uma mulher por dizer “eu não tenho raiva de homem”. Não conheço nenhuma misândrica que defenda que toda mulher devia ser misândrica.

Contudo, enquanto queremos ficar aqui, apenas usufruindo da nossa maneira de lidar com as frustrações do patriarcado, muitas feministas não-misândricas estão constantemente nos agredindo. Dizem que “não têm paciência pra esse tipo de pensamento”. Dizem que “misandria é uma seita religiosa”. Eu queria entender por que o fato de que odiamos homens ofende tanto algumas mulheres. Dizem que não podemos pensar assim. Aí, nós nos exaltamos e levamos pro pessoal. E eu quero explicar, aqui, por que atacar a misandria é um ataque pessoal, diferentemente de atacar posicionamentos políticos no feminismo.

Em primeiro lugar porque, pra maioria das misândricas, a misandria não é a priori um posicionamento político. Mas, para a maioria, não é uma questão de concordar ou não concordar, porque não é um posicionamento racional. Não existe uma ala do feminismo que pregue “odeie homens”, não existe um posicionamento político que possa algum dia querer te dizer como vc deve se sentir em relação a algo. Posicionamentos políticos se relacionam a ações em relação ao social, não a sentimentos.

Eu queria muito que mulheres não misândricas pudessem apenas respeitar a misandria das outras mulheres, pelo simples fato de “eu entendo que a reação emocional dela ao patriarcado e aos opressores é diferente da minha, talvez seja mais difícil pra ela, não vou colocar ainda mais culpa em cima de alguém que já é vítima de tanta coisa por ser mulher”. Porque muitas não-misândricas acham que a gente tem que “superar”. Aí a gente fica, além da culpa de ter sido estuprada, espancada, além da culpa de se sentir fraca, além da culpa de “ainda não ter superado”, ainda tem que ficar com culpa do modo como vc reagiu às violências da sua vida. Essas não-misândricas querem basicamente dizer pras vítimas das maiores atrocidades como elas têm que lidar sentimentalmente com o que as acometeu. Se você sofreu um estupro, dois, espancamento, sim muitas ficam com medo, ódio ou aversão a qualquer figura que lembre o masculino. E as anti-misandria dizem que isso é errado, preferindo acoar ainda mais as mulheres vítimas de misoginia, em nome da boa convivência com os opressores.

Isso porque parece impensável que mulheres possam odiar homens. A gente, dentro do movimento feminista, não pode ter a ousadia de odiar a categoria que nos oprime, coisa que em outros movimentos não é exigido das pessoas. No movimento operário não se cobra que eles não tenham raiva de patrão. Mas no feminista, estamos lidando com uma questão de homem e mulher. Estamos lidando com relações familiares, que são a base da afetividade e da sensação de segurança na nossa sociedade reificante. A verdade é que as anti-misandria veem na misandria um desafio a todas as suas relações afetivas e, principalmente, familiares. Homem é seu irmão, seu pai, que muitas vezes foram pessoas boas pra você (o que nem de longe é o caso com todo mundo). Como viver sem homens? Como odiar seus familiares? Essa menina tá pregando que eu não posso perdoar meus melhores amigos e continuar amiga deles?

Não, não estamos. Nós decidimos não perdoar. Mas nenhuma misândrica nunca vai dizer como vc tem que reagir a homens ou às eventuais opressões que você sofre. Isso porque nós, talvez melhor do que qualquer pessoa, sabemos como é as pessoas constantemente nos dizendo qual a maneira certa de reagir.

E agora eu vou ilustrar um pouco, porque eu acho que a falta de conhecimento sobre o que leva alguém a ser misândrica acaba fazendo com que se criem esses mitos sobre como nós somos vilãs cheias de ódio e sadismo pra distribuir gratuitamente pra homens.

Meu pai já fraturou uma vértebra da minha mãe. Já me trancou em casa pra sair me espancando. Eu me refugiei em um namorado: que me estuprou quando eu era virgem. Aí eu fui me refugiar no cara mais amoroso e fofo que eu já conheci: que me deu dois tapas na cara. E, finalmente, o cara que foi meu melhor amigo durante sete anos me estuprou. Isso sem falar todas as vezes em que um homem já me falou merda trigger não importando quão fofo parecesse ser.

Então não, a minha misandria não veio de lugar nenhum. Ela não é uma reação exagerada. Ela é uma reação traumática, derivada de traumas profundos e que francamente talvez sejam incuráveis.

 

 

 

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Esta entrada foi publicada em 08/04/2014 às 02:44 e está arquivada sob Uncategorized. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

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