Por um feminismo mais centrado na discussão de “Gênero”

Às vezes acho que nós feministas precisamos nos preocupar mais em discutir materialmente e abertamente nossas vivências sobre nossas opressões materiais ou ler teorias sobre gênero feitas por mulheres como nós. Nossas pautas de reivindicação evidentemente são essenciais, e é lindo que o feminismo não se perca na teoria em detrimento da ação. No entanto, são pautas que atacam sintomas e não as origens da opressão. Falamos de gênero sem colocarmos nossa definição sobre o termo, e a ausência desse debate permite sermos colonizadas quando alguém, externo a nós, nos vem com uma definição – isso, somado à nossa criação maternal que quer ouvir e aceitar a todas as criaturas frágeis do mundo. Isso também ocorre com relação à sexualidade. Mulheres heterossexuais são a maioria no feminismo, outras sexualidades são ignoradas, e frequentemente as mulheres heterossexuais se lembram do homem homossexual antes de se lembrar da existência da lésbica – como lésbica, vivo isso diariamente e se eu quisesse começar a contar cada caso eu não terminaria nunca. O resultado disso é igualmente colonizador: em vez de o feminismo observar suas teorias de gênero e partir delas, a partir das mulheres, desenvolver sua teoria da sexualidade, aceitamos as teorias desenvolvidas pelos homens gays. Guardem isso, mostrarei por que isso faz diferença.

Todos os blogs feministas que eu leio concordam com várias pautas. Todos concordam que a mulher e o homem são construções sociais – guarde isso, será importante. Também concordam que: somos oprimidas desde o nascimento, devido ao fato de que atribuem à nós uma categoria insignificante ao verem nossa anatomia, e não apenas a anatomia: essa anatomia só é importante porque indica que somos potenciais incubadoras – outro consenso e realidade essencial da mulher na nossa sociedade. Não é à toa que a maioria das nossas pautas se relaciona aos direitos reprodutivos: direito de planejamento familiar, direito ao aborto; a abolição da dupla jornada se liga às creches, e as creches são importantes pois nossa capacidade de engravidar nos coloca, nessa sociedade, como aquelas que devem cuidar das crianças, bem como nossa ligação à casa deriva disso; a maior desculpa para a desigualdade salarial é a de que engravidamos e cuidamos dos filhos, e pior, que PREFERIMOS cuidar dos filhos a trabalhar devido à nossa natureza como fêmeas. Houve até a época em que trabalhos femininos eram abertamente pior pagos no Brasil sob o rótulo de serem “trabalhos auxiliares”, apenas um auxílio para a renda familiar, afinal, nossa sina de incubadoras é cuidar dos filhos. Essas teorias também são derivadas da teoria de uma das feministas mais admiradas por nós, a Simone de Beauvoir, que diz que foi a gravidez a responsável por serem os machos humanos que submeteram as fêmeas humanas, e não o contrário. Outras pautas são contra a pedofilia, o tráfico infantil de meninas para a prostituição, a objetificação dos nossos corpos. Todo esse fetichismo vem do fato de sermos a categoria subjugada, digamos que do contrário seríamos nós a traficar homens. Não ocorreu o contrário pela nossa realidade material da gravidez.

Outro consenso é que homens continuam sendo nossos opressores porque recebem uma educação de acordo. E essa educação não vem apenas da família: a mulher pode ter uma família mais feminista, o homem também. Mas a televisão prega. As escolas pregam. As propagandas, professoras, coleguinhas, amiguinhos pregam. E essa diferença de criação vem, ninguém negará, do que as pessoas vêem inscrito em nossos corpos. Como diz Jeffreys:

“Enquanto que garotos e homens foram encorajados a direcionar todos os seus sentimentos à objetificação do outro e são recompensados com o “prazer” pela dominação, mulheres aprenderam seus sentimentos sexuais em uma situação de subordinação. Garotas são treinadas através de abuso sexual, assédio sexual, e desde muito cedo com encontros sexuais com garotos e homens assumindo um papel sexual reativo e submisso. Nós aprendemos nossos sentimentos sexuais da mesma forma que aprendemos outras emoções, em famílias de dominação masculina e em situações nas quais nós não possuímos poder”

No entanto, por alguma razão, nós não observamos quais são as consequências materiais de estendermos nossas premissas, que são sentidas e vividas pelas mulheres, não são premissas abstratas. “Ideias têm consequências materiais quando você age sobre elas. Você muda a opiniao politica nao apenas lendo, mas especialmente porque coisas acontecem que a moldam” (DGR), e é por isso que a discussão política sobre gênero é importante e não um mero academicismo – mesmo porque o academicismo é anti-feminista, vai contra a livre troca de experiências entre mulheres. Então minha proposta aqui é ver quais as consequências dos princípios com os quais todas já concordamos para evitar a colonização de nossos pensamentos, porque frequentemente congelamos essas ideias e aceitamos ideias exteriores sem perceber que elas são completamente contraditórias com o que acreditamos. E, se nossas premissas são materiais, será que o melhor caminho seria mesmo revê-las? Ou, ao fazê-lo, não estaríamos apagando nossas vivências?

A primeira coisa que me chama atenção: a premissa importantíssima de que homem e mulher são construções sociais. Ela é uma premissa material por dois motivos: a primeira é a observação de várias sociedades diferentes onde, embora em quase todas a mulher tenha papel submisso. Como aponta Christine Delphy:

“O gênero é o que se poderia chamar de “sexo social, quer dizer, todo o que é social nas diferenças entre mulheres e homens, nas divisões de trabalho, ou nos caracteres que se atribuem a um ou outro sexo. Como constatamos que variam entre sociedades (a divisão de trabalho não é a mesma), percebemos que existe um aspecto variável entre os sexos, um aspecto construído socialmente que chamamos de ‘gênero’ … As características físicas chamadas “de sexo” não são mais importantes em si mesmas que outras características físicas que distinguem a cada individuo dos demais. Mas como estes marcam – e justificam ideologicamente – uma diferença social fundamental, adquirem una importância desmesurada nas culturas patriarcais.

A segunda importância dessa premissa é que possamos nos contrapor à ideia que a ciência natural tem tentado nos impor: somos piores em matemática por diferenças no cérebro, “preferimos” cuidar de filhos a trabalhar por diferenças evolutivas e genéticas etc. O discurso biologizante é claramente nosso inimigo.

No entanto, aceitamos quando os homossexuais masculinos nos dizem: homossexualidade é genética, não construção social. Esquecemos que eles dizem isso não apenas porque os beneficia dizer isso enquanto gays, mas beneficia enquanto homens. Homens são bons em matemática devido à genética etc. Como a heterossexual não é vista como “desviante”, ela não vai teorizar sobre a sexualidade dela. Quem vai teorizar sobre “desviâncias” sexuais serão lésbicas e gays. O lamentável é que ignoremos as teorizações lésbicas, construtivistas sociais, em nome das teorias gays geneticistas, sendo que a segunda vai em total contradição com nosso construtivismo social. Contudo, legitima o status quo, e tanto a heterossexual como a lésbica se veem livres de encarar sua sexualidade como tema de discussão política (se é social, é tema de discussão política). Afinal, todas sabemos o quanto discussões políticas sobre nossas vidas incomodam, a maioria de nós ficou bastante incomodadas no primeiro contato com o feminismo.

Há outra colonização ideológica que aceitamos, sem perceber que está em plena contradição com nosso materialismo, com nossa crença de que tudo o que é considerado masculino gira em torno da dominação, e tudo o que é feminino gira em torno da submissão. A falta de ênfase na nossa definição de gênero e opressão faz com que não tentemos articular críticas ao vermos uma definição bem colocada, decidida por homens brancos europeus da elite acadêmica (Lacan, Deleuze, Foucault, entre outros). Imediatamente esquecemos que, há dois minutos atrás, estávamos falando sobre como a mulher é resumida na sociedade ao papel de incubadora, que é sua função social de dar um filho aos homens que a coloca como subordinada. Das diferenças de tratamento na sociedade entre uma pessoa tida como homem e uma pessoa tida como mulher. Esquecemos que apenas pessoas vistas como mulheres desde o nascimento passaram pelo estigma da gravidez, sabem o que é o terrorismo social que justifica sua prisão em casa pela gravidez, sabem o que é o terrorismo pessoal que te acompanha te forçando a ser mãe, sabem o que é modificar seu corpo com pílulas contra gravidez.

Nós esquecemos de tudo isso quando vemos uma categoria que também é uma categoria marginalizada pelo patriarcado dizer:

“Gênero é apenas auto-identificação, e eu me sinto mulher. Ser criada como mulher desde o nascimento é um privilégio e vocês são minhas opressoras diretas, jamais o contrário, porque não me beneficiei em nada da criação masculina que tive já que não me identifico como homem e nunca fui homem. Ao mesmo tempo, não há diferenças entre nós e eu sofro a mesma misoginia que vocês, só que agravada, e desde sempre, e espaços exclusivos para as necessidades de vocês é exclusão e opressão“.

Não estou dizendo que mulheres trans não sofrem misoginia, porque sofrem. Não estou dizendo que elas não têm opressões em comum conosco. Não estou dizendo que nós sofremos mais do que elas, não estou dizendo que transfobia não existe. Mas, só para um começo de diferença material: uma mulher trans pode engravidar uma mina e seu único benefício com a legalização do aborto não teria nada a ver com a autonomia e libertação do próprio corpo. Uma mulher trans que fale sobre aborto fala sobre uma realidade que não é, materialmente, dela. Em contrapartida, essa realidade é materialmente do homem trans, que é expulso do feminismo pelas mulheres trans como opressor de mulheres, apesar de ter sofrido misoginia desde seu nascimento.

Estou dizendo que discutir a socialização material de mulheres trans é imediatamente tido como transfobia por um motivo: se você discute isso, as diferenças materiais aparecem inevitavelmente. E a não discussão desse discurso de auto-identificação, a não problematização das diferenças de criação e de expectativas sociais leva a problemas graves como os que citarei a seguir.

Esquecemos tudo o que estávamos debatendo sobre nosso estigma reprodutivo e de como ele é responsável pelos milênios de opressão, e dizemos “não podemos fazer essa pessoa sofrer em problematizar que a socialização dela e as condições materiais dela são claramente diferentes”. Então, abrimos mão da nossa realidade, e aceitamos que ela não possa mais ser discutida. Ademais, ignorar a premissa com a qual concordamos: “Enquanto que garotos e homens foram encorajados a direcionar todos os seus sentimentos à objetificação do outro e são recompensados com o “prazer” pela dominação, mulheres aprenderam seus sentimentos sexuais em uma situação de subordinação” tem consequências catastróficas pra quando mulheres assim designadas desde o nascimento se relacionam com mulheres trans.  Crescer com a convicção de que você foi feita para ser explorada, ao ponto de você acreditar que isso é sua natureza imutável, ligada ao seu corpo, não é um privilégio (DGR), e é perigoso acreditar que somos opressoras pois essa crença leva a que comportamentos massivos dessa categoria social, e decorrentes de partes de sua socialização, nunca poderão ser tidos como opressivos sobre a nossa categoria apesar da semelhança com atitudes de homens. O relato a seguir é pesadíssimo, de uma vítima de estupro, e foi desacreditado pela comunidade trans, a agressora trans dessa mulher foi protegida e tudo foi posto como uma “briga entre mulheres” em situação de igualdade, e este é apenas um dos vários exemplos (podem me pedir outros):

“De repente, isso sumiu. De repente a disforia já não existia mais, e essa pessoa agradecia por sentir-se confortável em usar o pau comigo. E eu travei. A primeira vez que aquilo encostou em mim, eu travei. E ele insistia dizendo como ficava grato por se sentir tão confortável comigo, que eu era uma pessoa maravilhosa por criar aquela situação de conforto. Mas não importava muito se eu estava confortável. E eu não estava. E por diversas vezes eu tentei dizer, mas não consegui. Tentei realmente dizer, cheguei a começar a falar, e ele me disse que aquele assunto era um acionador emocional, para conversarmos sobre outra coisa. Eu tentei falar sobre meu incômodo em estar fazendo sexo daquela forma, eu tentei falar do meu incômodo sobre não estarmos usando proteção (sim, camisinha), e obtive como resposta: esse tipo de irresponsabilidade é comum e, além de tudo, você toma pílula. Foda-se o que eu estava sentindo.” (fonte: http://feminismoesororidade.wordpress.com/2014/02/24/a-vitima-ideal/ )

A auto-identificação é uma questão simbólica. A mulher trans entra em contato com a feminilidade não pela educação que recebe, não pelo tratamento social que recebe nas escolas, pelos pais, professors etc. e isso é inegável. Então por que a identificação? Não importa. O que importa é que o feminino para ela é totalmente diferente do que é para nós, vide os constantes odes de várias delas à gravidez a despeito das nossas reclamações. A gravidez não lhes é uma realidade material forçada devido à sua anatomia e potencial incubador, mas uma carga simbólica positiva e representativa do feminino. A pessoa que foi vista como homem em seu nascimento pode ser bombardeada com discurso hegemônico, mas não é forçada a além disso ser uma maternal cuidadora dos outros, uma virgem assexual e compreensiva, que é justamente um dos maiores ônus do feminismo.

Enfim, nossa falta de trocas de experiências e ênfase em nossas premissas materiais, nosso foco apenas na inserção no mercado de trabalho em vez de no desenvolvimento da troca de experiências e teorias tem feito com que tenhamos preterido nossa própria realidade em nome de abraçar, maternalmente outras causas antes de pararmos para refletir sobre o impacto material disso sobre nós, como categoria de pessoas que foram criadas mulheres desde o nascimento e para quem o discurso essencialista nada acrescenta. Nós somos mulheres desde crianças? Ou fomos construídas mulheres desde crianças? Quando aceitamos o discurso trans de que elas eram mulheres desde sempre, entramos em embate direto com nosso discurso de que “não se nasce mulher, torna-se”. E esquecemos que a mulher a escrever essas palavras tinha um engajamento com o material que deixava o processo de tornar-se mulher absolutamente dependente da condição material de potencial incubadora (digo sempre potencial, pois há mulheres inférteis que contudo nunca foram imunes a essa expectativa social). Para compreendermos que mulheres trans são mulheres será apenas da perspectiva de que algumas delas passam a sofrer misoginia mais tarde na vida. Não podemos fazer isso de uma perspectiva essencialista. Não podemos dizer que elas foram sempre mulheres trans porque não podemos dizer que nós mesmas fomos sempre mulheres. Não podemos, simplesmente, porque o feminismo luta pela liberdade de transcendermos nossa categoria, desde sempre. Inclusive, sempre desconfiarei do fato de que a esmagadora maioria das mulheres se lembra tanto dos homens gays como das mulheres trans muito antes de mostrarem real preocupação pelas as mulheres lésbicas, ou com as mulheres negras, ou com as pessoas trans* com útero.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em 13/06/2014 às 11:39 e está arquivada sob Uncategorized. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: