A diferença entre o homem cisgênero e a mulher cisgênera; ou PAREM A OLIMPÍADA DE OPRESSÃO

Diz Catherine MacKinnon que uma das grandes vitórias do patriarcado, uma das suas melhores estratégias, foi convencer as pessoas do sexo feminino de que a feminilidade, isto é, a submissão, faz parte da nossa essência.

A questão aqui é semelhante de dizer que gays e lésbicas sofrem estruturalmente a mesma coisa, homofobia. Colocá-los no mesmo barco. Quando vc olha, as opressões não apenas tem formas diferentes como têm origens estruturalmente opostas. Por isso o gay busca apenas reconquistar os diretos masculinos que lhe foram negados por ser gay, e a lésbica não tem como se encaixar nessa luta. A lesbofobia não é mera intersecção de homofobia e misoginia, ela é estruturalmentr outra coisa perante o patriarcado.

Da mesma forma, é absurdo achar que mulheres e homens podem ser colocados sob o mesmo modelo de privilégio cis, no mesmo barco como cis. A cisgeneridade da mulher, a mulheridade é obrigatória mesmo para o homem trans, que mesmo a tomar testosterona vai ter passado pelos abusos de ter um corpo feminino antes da transição. E, se como a maioria dos homens trans, no brasil ele não tomar testosterona, ele apenas vai continuar sofrendo toda a opressão da mulheridade da qual ele não tem opção de fugir não importa quão assumido ele esteja, da mesma forma que a mulheridade ‘cisgênera’ de qualquer uma. É óbvio que um homem cis tem privilégio sobre um homem trans mas isso não é pela cisgeneridade do homem: é meramente por ser homem e visto como tal, enquanto o homem trans não escapa ao feminino, à obrigação patriarcal de ser mulher. Ninguém escapa a isso. Enquanto para a pessoa nascida homem a cisgeneridade ou a transgeneridadee é uma das opções (NÃO ESTOU falando que é escolha, estou falando que há vários caminhos materiais a seguir), para a pessoa nascida com útero a mulheridade é pra sempre compulsória. E criar-se uma divisão entre essas pessoas é o mesmo que criar uma divisão entre lésbicas e heterossexuais. A heterossexual não oprime a lésbica só porque faz o que o patriarcado espera dela e por isso ganha uns COOKIES. As forças que oprimem ambas são as mesmas e tem a mesma origem, que é manter a mulher a serviço do homem – aquela que ousa sair disso é punida. Da mesma forma a cisgeneridade e a transgeneridade. A pessoa nascida com útero que ousa sair dos coformes é oprimida por essa mesma força patriarcal, que é sim reproduzida pelas mulheres “cisgêneras” mas as beneficia exatamente em que? Se elas nao se veem podendo se dar o luxo de sair da caixa do seu gênero, porque acham que seu gênero é seu destino e sua alma, que a submissão, a aceitação de espancamento e estupro, está impressa na sua biologia e ela nao pode mudar isso, que privilégio é esse? Se a estratégia do patriarcado é justamente naturalizar nossa submissão, como  é que nós aceitarmos isso, essa imposição a todas as pessoas com útero, pode estar nos beneficiando?

A opressão da mulher dita cisgenera não é menor que a da mulher trans. São opressões diferentes, com origens totqlmente distintas (a trans é oprimida, como o gay, por dividir e enfraquecer a classe masculina em negar exercer seu papel de macho dominador). Mas, assim como a homofobia não é a mesma pra mulheres e homens, a transgeneridade não é também, já disse, a origem da opressão do homem trans é tentar (e falhar em) não cumprir seu papel submisso e incubador na sociedade. Mas a pessoa com útero sempre vai falhar em tentar escapar ao destino material que lhe é passado. O homem trans muitas vezes vai ser visto como lésbica e sofrer estupro corretivo. Não adianta, o destino da pessoa com útero será pra sempre o mesmo, e a origem de sua opressão será sempre o rebelar-se da escravidão e de seu destino de prostituida, e as mulheres que agem de acordo com o patriarcado podem até ganhar empregos etc. mas o fazem como recompensa por serem escravas felizes do sistema que as mata. Então as trans estão se matando, as ‘cis’ estão sendo mortas. As trans querem o que, a mesma recompensa pela escravidão exercida pacificamente?
Parem com a OLIMPÍADA DE OPRESSÃO. Somos todas e todos e todes (exceto homens cisgêneros) oprimidas pelo sistema patriarcal de maneiras diferentes. E quem nos oprime não somos umas as outras enquanto gênero (enquanto GÊNERO, não estou falando que mulher branca nao pode oprimir mulher negra pela RAÇA), quem nos oprime é o patriarcado, são os HOMENS CISGÊNEROS, então parem com a olimpíada, parem o FOGO CRUZADO onde cada uma bate na opressão da outra pela qual não passa, onde cada lado diz que o outro é que tem privilégios. O privilégio é SÓ DELES, o restante apenas recebe recompensas por ser uma escrava que não se rebela e ainda entrega suas irmãs. ISSO NÃO É PRIVILEGIO, e eu falo como lésbica butch em extrema nao conformidade que deixa de ganhar empregos por isso.

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Esta entrada foi publicada em 29/06/2014 às 15:07 e está arquivada sob "Minorias", Feminismo. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

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