Me perguntaram a diferença entre radfem e libfem

O feminismo radical é o único (não só em relação ao lib, mas ao socialista e ao feminismo anarquista) comprometido a fazer um movimento feminista baseado apenas na vivência das mulheres. Somos nós, dialogando só entre nós mesmas, percebendo o que temos em comum e quem somos. O que é a maternidade compulsória, o que é ser chamada de Lolita na puberdade, o que é ser controlada e se auto-controlar por conta da gravidez etc. A teoria parte disso, e rejeitamos que nos colonizem com teorias masculinas, porque toda teoria serve a algum interesse, e sempre serve ao interesse de quem as tece. Então nós somos, pelo menos aqui no Brasil, a linha que mais problematiza sexo e gênero e discute o que são essas coisas, e o que é ser mulher (discussão que fica de lado em todos os outros movimentos).

Eu vou falar do lib como é no Brasil, entre as pessoas normais e não acadêmicas, porque nos EUA é diferente. O lib usa certas coisas da vivência, mas não aprofunda. Você vai nos blogs libs e tem várias coisas escritas sobre vivência: como é a nossa educação que nos fez assim, etc. O problema (e risco) do lib é que a discussão disso é secundaria. O foco do lib são as pautas capitalistas, que giram em torno da inserção no mercado de trabalho com bons salários etc. Não problematiza por exemplo o que significa, pra uma mulher, se relacionar com seu opressor. E o fato de ter foco nas pautas e não nas vivências das mulheres faz com que a gente aceite teorias completamente contraditórias com nossos preceitos (preceitos de que temos uma realidade comum porque temos essa educação comum, e que ser mulher é algo construído, ligado ao nosso potencial incubador de neném). E a teoria em certo nível – não acadêmico, mas na discussão aprofundada das vivências entre mulheres – é importante, porque a teoria posta em prática tem conseqüências muito diferentes. 

Então o que acontece, a gente lib tem essa ideia de que ser mulher e ser homem é algo socialmente construído. Então como que a gente aceita quando os gays falam que ser gay é genético? Isso implicaria que ser homem ou mulher não é construído. Aí a gente pensa “bom, vai ver que a atração então é pelo corpo biológico mas o gênero é construído”. Beleza. E aí a gente aceita outro discurso que é contraditório com o discurso que nós aceitamos dos gays, que é o das pessoas trans que dizem: se vc é lésbica, vc tem que gostar de mulheres cis e trans. E isso implicaria que não é uma atração genética pelo corpo. Mas a gente aceita os dois ao mesmo tempo. E outros também.

É esse o risco do lib, a falta de dialogo entre as mulheres de mesma condição materual sobre a sua vivência permite muita colonização exterior. A gente aceita sem pensar e luta por tudo isso. Também porque nossa condição de maternidade compulsória, que nos é dada devido ao nosso potencial incubador, nos treinou pra sermos cuidadoras, queremos abraçar o mundo.

Por isso é necessário juntar as pessoas com a mesma vivência material pra conversarem entre si, pra não ter esses furos e pra gente se fortalecer. Porque, por exemplo, acreditar na genética dos gays é legitimar uma ciência que diz que nós somos geneticamente inferiores, geneticamente submissas. Não podemos concordar com isso.

E a outra coisa do lib que é meio curiosa é que ele ouve muito mais os gays do que as lésbicas. Então ninguém do lib já ouviu falar de teoria feminista lésbica (radical) a não ser por meio de insultos. Mas todo mundo já ouviu a tese de que homossexualidade é genética, tese essa que surgiu com os gays e que nós rad e feministas lésbicas sempre repudiamos.

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Esta entrada foi publicada em 29/06/2014 às 15:17 e está arquivada sob Uncategorized. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

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