Botando a mão no formigueiro: sexo, raça, classe e “cisgeneridade”?

O feminismo radical tem frequentemente sido lembrado por supostamente “excluir” mulheres trans, em vez de ser lembrado por sua contribuição à situação da mulher que foi assim designada devido à necessidades que os machos tiveram de controlar a reprodução das fêmeas. Veja, isso não é nenhuma rad muito doidera, isso é Simone de Beauvoir em O Segundo Sexo. E não é à toa que o nome do livro é “sexo” e não “O Segundo Gênero”. Todos conhecem a famosa frase dela de que “não se nasce mulher, torna-se” então acho que é de comum acordo que a Simone de Beauvoir não resumia a mulher a uma buceta. A análise dela de como a sociedade funciona (e não de como deveria funcionar) é a seguinte. A feminilidade é tudo aquilo que é ligado ao nosso papel submisso ao do homem. Esse papel nos foi atribuído porque o macho quis dominar a fêmea (ela usa esse termo) porque ela tinha a possibilidade de gestar – e pra Simone de Beauvoir, o macho obteve êxito pelo fato de que a gestação nos limitou em vários momentos da história, até a época atual. O momento histórico em que vivemos hoje, devido em certa parte à nossa situação material, permitiu que a fêmea, que sequer era identificada como humana (o humano é O Homem) tivesse condições de, digamos, superar suas condições biológicas em direção a reivindicar seu status de humana. Existem feministas que concordam fortemente com essa visão. Outras reformulam nesse sentido:

“as características físicas chamadas de “sexo’  não são importantes em si mesmas. Mas como estes marcam – e justificam ideologicamente – uma diferença social fundamental, adquirem uma importância desmesurada nas culturas patriarcais”. (Delphy)

E essa diferença social, pra essa autora, vem de uma realidade de exploração material, que é algo que pode ser observado. Essa situação possui uma categoria que se beneficia e uma categoria que é dominada. São classes sexuais. O explorador necessariamente é a categoria que se beneficia dos recursos extraídos. No caso das fêmeas, nós somos exploradas pelos machos nesses quesitos: trabalho doméstico, situação sexual e reprodutiva. 

O feminismo radical também só passou a ter esse nome recentemente. Porque ele na verdade é o feminismo de segunda onda, ele detém toda a produção intelectual feita exclusivamente por lésbicas e outras mulheres baseadas na busca de seus interesses. O feminismo radical sai em parte de uma dissidência com a esquerda marxista, tentando mostrar, nos mesmos termos materialistas, como se dá a exploração das mulheres, inclusive em relação à raça e à classe:

“A relação que a mulher tenha com a relação tida pelo homem na produção [capitalista] fixa a classe da mulher, de um modo que corta através das posições classiais relativas ao trabalho que a mulher, em si, produz. Isto é, se ela for exclusivamente dona de casa, sua posição classial é determinada pelo trabalho que seu marido exerce fora do lar – a despeito do fato de que o trabalho de casa é incrivelmente similar entre as classes e, quando pago, é considerado um trabalho do proletariado”.

Estou dizendo isso para questionar por que as pessoas conseguem aceitar que há um antagonismo materialista entre classes (proletária x burguesa) mas, dizermos que existe uma relação de antagonismo de classe entre o sexo feminino e o sexo feminino parece ser assim tão ofensivo.

Qual a importância de ressaltar o aspecto materialista do feminismo radical? Vou explicar. O materialismo tem uma metodologia fixa de verificação de quem é o explorador e quem é a explorada, isso é, quem são as classes antagônicas. A classe dominante é aquela que retira recursos da classe explorada. Com o conceito vago de “opressão”, você não tem como estabelecer quem é a classe que está explorando aquela classe. A partir disso, se o gay resolve dizer que mulheres heterossexuais o oprimem, ele pode e não há meios de ir conferir essa realidade materialmente.

Se você repara que a heterossexualidade é posta como privilégio tanto para mulheres como pra homens (de novo, coloca mulheres e homens no mesmo barco), você percebe que o que eles têm usado como critério pra definir opressão é a aceitação social. E esse parâmetro é péssimo, porque você ser bem aceita pelo sistema que te cria pra ser explorada e quer que você aceite isso não é um privilégio. Ser um homem heterossexual é um privilégio e ser uma mulher heterossexual é um risco de vida.

Isso tudo posto…

A opressão que a mulher sofre é verificáveis e deriva, como já disse, da exploração de seu trabalho doméstico, situação sexual e reprodutiva. A exploração do trabalho doméstico vem desde a infância dentro de casa e, inclusive, boa parte das meninas é vendida para trabalho infantil na domesticidade. Isso não ocorre com meninos. Meninas púberes (aquelas “Lolitas”) são traficadas para a prostituição a partir dos seus 9 anos de idade, coisa que acontece raramente com pessoas que possuem pintos. Você verifica, materialmente, que a sociedade impões condições completamente diferentes pra quem tem pênis e pra quem tem vagina, porque A SOCIEDADE (e não o feminismo radical) elencou essa caraterística biológica como relevante.

A mulher trans não sofre essas coisas. Ela sofre outras. A opressão dela não deriva de ser obrigada a ser subserviente, mas de não cumprir seu papel masculino e, assim como o gay, enfraquecer a classe masculina com isso. A única exploração que temos em comum é a exploração sexual, nenhuma outra. As reivindicações de ambos os movimentos não batem – gravidez, maternidade compulsória, creches, aborto não são bandeiras delas. Nome social, usar banheiro, etc. não são bandeiras nossas. 

As pessoas são desonestas em comparar a exclusão da mulher negra com a exclusão da mulher trans. Porque a mulher negra divide conosco todas as explorações por ser mulher somadas à exploração por ser negra. As principais bandeiras contra a maternidade compulsória, a favor de creches, a favor do aborto contemplam a mulher negra enquanto mulher, ainda que o cruzamento com a exploração de raça e classe façam com que ela precise adicionar outras reivindicações. Citando Audre Lorde, que era radical:

“A opressão das mulheres não possui limites étnicos nem raciais, de fato, mas isso não significa que é idêntica dentro dessas diferenças. As reservas de nossos poderes ancestrais também não conhecem esses limites. Lidar com um deles sem sequer mencionar o outro é distorcer o que temos em comum, da mesma forma que distorce as nossas diferenças. Pois, para além da irmandade, continua sendo racismo”.

Outra desonestidade é, da mesma forma que se coloca a heterossexualidade como privilégio para a mulher tanto quanto para o homem, e isso é uma mentira deslavada, coloca-se a “cisgeneridade” como privilégio para homens e mulheres. Mas voltando, qual o critério mesmo de definição de opressão pra essas pessoas? Ah, sim, aceitação social. Mas, como já vimos:

Catherine MacKinnon ressalta que aestratégia do patriarcado é fazer as mulheres acharem que a submissão é a sua identidade. Que é algo inato, natural a ela.

“Se identificar” como mulher é ter sido obrigada a entender sua exploração como algo natural. É “consentir” à exploração. Alguém que consente em ser explorada e ganha cookies patriarcais por isso não é privilegiada. Assim como a heterossexual não é privilegiada por se relacionar com homens, mesmo que isso lhe dê algumas migalhas de prêmio. Qual o parâmetro para se definir privilégios? Aceitação social? Se as pessoas aceitam minhas condutas, então eu tenho privilégios? Mas a aceitação das minhas condutas vem justamente do fato de que eu estou agindo de acordo com a melhor maneira de me deixar ser explorada. Porque condutas revolucionárias são as não-aceitas.

Materialmente, onde verificamos a classe exploradora das mulheres trans? Nos homens “cisgêneros”.

Tô meio sem ideia de como fazer o fechamento desse texto porque eu já disse tudo o que eu queria. Beijas.

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Esta entrada foi publicada em 06/08/2014 às 23:21 e está arquivada sob Uncategorized. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

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