Resposta à coerção social ao estupro corretivo de lésbicas

(junção de comentários de Aline Dias, Jan Jan e Nina Scarnia)

De forma suscinta, acho que independente de uma feminista se considerar radical ou queer ou qualquer outra coisa, um consenso feminista é de que “não é não”, nunca deve ser posto em questão o motivo de alguém rejeitar sexo ou afeto com outra pessoa independente de cor, classe, conformidade de gênero. Eu visibilizo como manipulação e coerção alguém falar, a despeito de colocarmos em questão a construção social do desejo dentro de modelos racistas, brancos, classistas, lesbofóbicos, gordofóbicos, mãe-fóbicos, xenofóbicos, e etc, que uma mina não quer ficar com a outra por alguma característica pessoal. Eu por exemplo gosto de lésbicas né, não me atraio por mulheres heterossexuais, mas imagina se eu quisesse ficar com uma mulher que se considera heterossexual e eu chamasse ela de lesbofóbica caso ela não quisesse ficar comigo? Eu não acho isso bacana nem feminista.

Nós lésbicas somos vistas como um problema na maioria dos círculos onde as pessoas gostam de pênis, e isso quer dizer pontualmente que somos vistas com desconfiança entre heterossexuais, gays e transsexuais. Somos excluídas, motivo de risada, piada e frequentemente questionadas sobre os motivos de não gostar de pênis. Nossa sexualidade é questionada se somos lésbicas e gostamos de vibradores e dildos porque logo associam isso aos homens, nossa sexualidade é questionada se em algum momento já namoramos e transamos com homens e isso é frequentemente usado para nos silenciar e/ou coagir. Por isso acredito que a proteção de mulheres não lésbicas com as lésbicas é a melhor saída sobre tudo isso.

A lesbiandade não é amor a uma genitalia, é amor a pessoas que pertencem a mesma categoria explorada que vc, é amar suas iguais, suas irmãs, que sofrem a mesma merda que vc todo dia. As vivências são comuns porque a sociedade elencou que todas as pessoas com vagina teriam a mesma socialização. E não é a toa que as lésbicas são o grupo mais marginalizado em qualquer vertente menos no rad. A genre é a verdadeira ameaça ao patriarcado justamente por fortalecer nossa categoria e negar Acesso Ao Falo.

Acredito que pessoas transexuais tenham ansiedade em serem vistas e aceitas como “mulheres” e misturando isso á socialização masculina que inevitavelmente tiveram, muitas acabam com um discurso culpabilizador. As lésbicas que já são adultas normalmente conseguem ignorar esse discurso de culpa sem se martirizar, mas eu tenho medo desse discurso chegando nas lésbicas mais novas ou com algum problema de auto estima ou auto afirmação dentro dos círculos. Acredito que precisa existir uma conscientização feminista das mulheres não lésbicas para proteger as lésbicas.

Se é pra respeitar o corpo do homens transexual que quer se transformar numa mulher, quer se modificar inteiro e não quer ser invadido pelo masculino, porque não respeitar uma lésbica que não quer ser invadida por um órgão genital, por um falo, um pênis?

Porque o direito da mulher sobre o corpo dela é questionado sempre mas o acesso ao corpo dela por outra pessoa não é questionado?

Porque uma lésbica não pode rejeitar um pênis, seja ele de quem for? por isso ofende? Não é mais saudável trabalhar a misoginia internalidade dessa pessoa que esta em transição?

Uma pessoa socializada homem não vai entender “do nada”, que o pênis dela não é bem vindo porque até então, o pênis dela abria portas e era glorificado. Por isso acredito que a lógica precisa ser invertida sabe? vi muitas moças sendo coagidas, e é sim estupro coagir uma lésbica a receber um pênis no seu corpo. E também é preciso ouvir as lésbicas porque mulheres não lésbicas raramente entendem que o que nos torna lésbicas não é o “ser mulher” não é a performance criada em cima do que é ser mulher. Nós não somos atraídas por cabelos compridos, batom e jeito feminino, nós gostamos e nos aproximamos afetivamente de mulheres por outras coisas, e uma mulher trans não vai nos contemplar, mesmo se operada, mesmo que a operação tenha sido um sucesso e pareça um órgão feminino real.

E muito francamente, mulheres trans sem disforia (que geralmente curtem mulheres) muito claramente reivindicam o direito que aprenderam a ter de acesso irrestrito do falo aos corpos das mulheres. Vide toda essa comoção direcionada pra que lésbicas sejam obrigadas a “desconstruir” e começar a gostar de pênis, porque não gostar é transfobia. Não vejo outras categorias de mulheres marginalizadas fazendo uma super campanha focada em lésbicas de uma categoria opressora ficarem com elas. Tem problematização de por que há segregação, mas ninguém faz de “aprender a gostar” uma bandeira. Isso é discurso de estupro corretivo.

 

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Esta entrada foi publicada em 09/08/2014 às 00:24 e está arquivada sob Uncategorized. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

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